Tião Nascimento

"Por que a poesia é  o canto da alma"

Meu Diário
25/03/2008 20h50
RECORTES DA VIDA

VOCÊ JÁ DISSE EU TE AMO ?....


 


 


Quando abri meu correio eletrônico encontrei um e-mail  que me fazia essa pergunta : - Você já disse  eu te amo?...  -  eu estava chegando de Vitória, de  um encontro com a minha mãe. Com o mal de azeimher e a perseguição do tempo que implacável vai encolhendo o seu corpo e franzindo   sua pele como um brinquedo de criança ,e  vítima  de uma queda, se  aquieta sobre uma cama.  .E com o olhar perdido busca  o contato com as   pessoas que se aproximam, porque  os olhos já não são os mesmos. E entre  o que lhe  restam de seus dentes, sons guturais  tentam se organizar em palavras desconexas, perdidas... e gaguejadas se perdem na indiferença do seu cérebro que, por algum motivo, que a vida nunca me explicou, se acha no direito de  acomodar-se. Os braços gesticulam vontades de abraçar mas  já não abraçam como antes e como tantas vezes ; as mãos com os dedos curvados sob o peso da osteoporose apenas passeiam  em minhas mãos quando o intuito de agarrar já não lhe obedece, e voltam de encontro ao corpo; seus lábios, nos intervalos dos desvarios, parecem querer contar-me coisas que  ficaram  esquecidas  nos cuidados de não magoar; parecem  querer-me abençoar ou agradecer por eu estar ali, e balbuciam como se lhe importasse dizer  coisas que  teimaram em esperar pelo momento certo;


            Eu lhe disse  “eu te amo, mãe”. Disse isso para ouvidos surdos, para olhos cegos. Disse isso para braços que já não me abraçavam, para mãos que não me  pegavam, para lábios  que não me sorriam, porque em toda a minha vida eu nunca soube dizer isso para quem me deu tanto. Uma vida que chega ao fim, quem sabe, sedenta dessas palavras. E eu tive tantas oportunidades, tanto tempo...


            Corroi-me a alma o amor que  eu não soube traduzir em palavras, as decepções, as mágoas, as lágrimas que fiz correr em seus olhos. O sorriso  que apaguei dos seus lábios,  o carinho que neguei às tuas mãos. Corroi--me a dor do filho que não fui para você. Mas eu te amo, mãe.  De verdade.


 


                                                                                                               Dedicado a Almira


Publicado por TiaoNascimento em 25/03/2008 às 20h50
 
15/03/2007 21h26
SINOPSE DE MIM
Tenho saudade dos meus cinco anos. Cinco ou seis, creio que cinco mesmo. Entre elevados de Cachoeiro de Santa Leopoldina, no Espírito Santo, onde o verde ginga ao menor movimento da natureza e o vento sopra por um oco invisível cujo som harmoniza com o sussurro das águas do rio Santa Maria,hoje semi morto, e que corta a cidade, insistindo em fazer parte da sua presença bucólica no ventre do belo Espírito Santo.
No alto, ainda vigilante, a igreja onde recebi as águas do batismo, cultua no seu sossego as lembranças nos passos inaudíveis de Marichinha, a comadre, por parte de meu irmão,e que minha mãe recordava com um carinho especial, e Clarindo meu padrinho, que esperaram-me para conhece-los até depois dos noventa anos. Alú, de uma lembrança vaga, de uma inimizade com meus pais que nunca me explicaram. A minha mente de criança ainda me traz a imagem da Cecília, esposa do Alu e Polinha,cujo nome real me foge, filha do casal.
Da rua do quartel, onde nasci,nasci mesmo pois minha mãe nunca foi a um hospital, a casa que me deu abrigo naquela infância,permanece lá, com janelas e portas acompanhando as mudanças dos tempos, mas ainda com aquela aparência que me fez reconhece-la à primeira vista. De pé na calçada,onde o velho Bonésio passava todas as tarde e sempre chegava para um chá de pariparoba, antes e depois de cuidar da cabeça do meu irmão que, infestado de “bernes”, necessitava dos cuidado de um entendido, e o velho o era, dali olhei para o fim da rua a se confundir com a outra que segue para a gruta, a gruta de água límpida e pura,o cemitério e o campo de futebol, e fechei os olhos para ver passar o carnaval de Dalmácio, de mascarados, lontras e burrinhas. Uma rua que não me veio o nome. Do meu lado, do outro lado , pareceu-me ouvir a voz forte e rouca de um exportador de banana: O velho Júlio Gaúcho. E fui buscar os braços de vó Dilina, velha parteira que me trouxe ao mundo, assim como meus irmãos, e foi minha mãe de leite.
Na rua que não me veio o nome, ainda paira no ar a canção “La Paloma”, que fugia da vitrola do velho Alu, quando passamos para enterrar minha irmãzinha,ainda de colo, Maria Nilza, que Deus quis mais cedo.E seguia num caixão rude e pobre que meu pai fez enquanto os vizinhos velavam o seu corpo na sala. Período de pobreza que meu pai, desempregado, fazia tamanco, calçado rude daquela época , e colchão de capim, para suprir nossas necessidades. João Tamanquinho foi um apelido desde então e que meu pai nunca aceitou. Se fecho os olhos ainda visualizo o montinho de terra que registrava o fim de uma irmã que não me deixou a imagem.
Ali, acompanhando a rua que não me veio o nome, um riacho segue falando baixinho, para não incomodar as coisas de antigamente, “as emoções do passado”, e vai se eternizar nas águas do Santa Maria. Naquele córrego, de água abaixo das canelas, brinquei com meus irmãos enquanto minha mãe lavava nossas poucas roupas.
Cachoeiro de montes e verdes, riachos e cachoeiras. De Clarindo, de Marichinha, de Alú. Cachoeiro de Dona Dilina. Cachoeiro de Dalmácio e de Júlio Gaúcho. Cachoeiro de João Nascimento,o tamanquinho. Cachoeiro de Santa Leopoldina. “Meu pequeno Cachoeiro.”

Cariacica me recebeu de braços abertos e dividiu minha naturalidade. Vivi a infância, ou o que restava dela, com Wellington, Zé Luiz, Agostinho,na rua do Campo de Futebol,e Joguei bola no Estrela F.C. com Eiras, do Dukla Coutinho que foi imortalizado na rua que sempre morou. Estrela foi meu primeiro time de futebol. O Estrela foi resultado de um jogo de camisa, bola e uma bomba para enche-la, que Eiras ganhou no natal.
Ganhei o caminho da vida pelas mãos de Cecília Emília Thomes, a primeira professora, linda, profissional e dedicada. Na Escola do Porto de Cariacica, a Escola Estadual Eulália Moreira, da dona Elvira, Aláide, Neném, Hermínia, Aurora. Ali também conheci o amor, naquela morena de cabelos longos e negros que cantava e dançava numa rodinha de professores e amigos. Nega, assim a chamavam. Dali fui formar a primeira turma do,hoje, Complexo Escolar São João Batista, em Cariacica. E colocamos a pedra fundamental daquele prédio. Lembro , com saudade, de Alcebíades, Ilza, Áurea, Alfredina, Roberto,(prizeta), Ailme, Peínha e Neuza. Lembro também do Locival, Bibinho,Jaceguay, Jucy e Fernando, bom contador de piadas.Que saudade da professora Glecy Helena e do professor Durval,que depois lecionou para meu filho Marcondes no Colégio Estadual em vitória.Professor Arildo e o Padre Pedro Pereira.
Passei a adolescência com Babau, Dirlan (o veínho), Gilson Queiroz ( o querozene) que pegou o vício de se masturbar antes das peladinhas de fim de semana. E isso dentro do campo. Formamos o América F.C., criação do Gilson Querozene e perdemos por onze a zero num jogo debaixo da ponte na Vila Rubim, em Vitória, estreando uma camisa que nosso presidente Toninho foi buscar no Rio de Janeiro. Joguei bola com Tutu, bom de bola e Antônio,o “parada” porque nos fazia lembrar um jogador do Bangu.Corria na área com Cacade, tão ruim quanto eu e que tornou-se cantor das noites de Cariacica. Corri atrás das “gatinhas” com Adilson “Campanhia”, o Gordo e Alemão que ganhava todas.Conheci as “mulheres da vida” nos passeios com Avilson, em noitadas de fins de semana. Avilson que ainda hoje povoa a Rua Paulo Rodrigues de onde guardo momentos inesquecíveis.
Trabalhei na Frincasa, um frigorífico em Itacibá,bairro de Cariacica onde namorei Nilda, a dudinha, e Helena que a comparei com aquela de Machado de Assis. Convivi com Marlene, Marli e Rubens, do Seo Geraldo e dona Ieda, na época que trabalhei na justiça, onde aprendi com juizes como Martiniano Lintz e Lourismário José Vieira coisas que só nossos pais sabem ensinar, e promotores como Diógenes Malacarne e advogados como Roberto Alves Moll. Troquei idéias romântica com Olívia, Ana Papú, Carminha,Sônia e Lourdinha. Tive uma amizade que deixou cicatrizes : Dailza Monserrat Pina Laranja, a Deyse. Aprendi a beber e fumar porque a garota com quem eu queria “ficar apenas” não era tão garota como eu pensava e disse-me que homem para ela tinha que ter “bafo de cigarro e de álcool”. Havia um banco na praça da igreja católica, de pés de ferro ornamentado, próxima da casa dela, que poderia contar essa história. Eu tinha apenas 15 anos, na época uma criança.
Fui estudar um segundo grau, técnico em contabilidade, no Colégio Pedro II, em Jardim américa, quando formamos um trio inseparável : Zinco, Ram e Jaó ( eu, Rogério Alves Mal e Josemar Azevedo Oliveira)
Fugi de Cariacica em busca de ajuda financeira para meus pais. Peguei o trem da Cia.Vale do Rio Doce, já como empregado dela e vim buscar Deuleni, no Naque, para que pudéssemos ter Dayala, Marcondes e Saulo e agora um presente de Marcondes e Edilaine: Allana.
Ensinei alguma coisa do que aprendi para muitas pessoas. Lecionei por dez anos.
Comecei a poetar aos dezesseis anos e aperfeiçoei meus conhecimentos no Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – UNILESTE - onde me tornei bacharel em Jornalismo no ano de 2004.
Quem poderia confirmar tanta coisa está com mal de Alzheimer. Aos 85 anos ( 28 agosto ) não conhece ninguém mais da família . Minha mãe.
Não lêem . São saudades que podem entediar você.

Publicado por TiaoNascimento em 15/03/2007 às 21h26

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